Entrevista com Marcílio Moreira de Castro

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Por Naomi Sutcliffe de Moraes

1.  Oi, Marcílio. Antes de começar a falar sobre o dicionário propriamente dito, você poderia contar sobre sua formação em direito/economia/contabilidade?

Sou formado pela Faculdade de Direito da Universidade Federal de Minas Gerais. Sempre gostei de Direito Econômico e Direito Tributário, por isso o interesse também por Economia e Contabilidade. Após realizar um estágio na Secretaria de Direito Econômico do Ministério da Justiça, resolvi aprofundar os estudos em Economia.

Além disso, um conhecimento profundo de Economia e Contabilidade é essencial para o tradutor jurídico, especialmente em trabalhos envolvendo Direito Tributário, Direito Concorrencial, Direito Societário, falência e outros.

2. Quando começou seu envolvimento com tradução/interpretação de idiomas?

Comecei a traduzir no primeiro semestre da Faculdade de Direito, em 1999. Minha iniciação ocorreu em razão de um e-mail que escrevi para o Danilo Nogueira. Apresentei-me e pedi ajuda para entrar no mercado de tradução jurídica. Sem seu auxílio e seu incentivo, eu talvez não tivesse prosseguido na profissão.

Sempre gostei muito de estudar inglês e, desde o início da faculdade de Direito, estava convencido de que gostaria de realizar um estudo jurídico bilíngue e me especializar em cooperação jurídica internacional e tradução de textos jurídicos.

3. E a ideia de criar o dicionário?  Quanto tempo levou para a coisa tomar rumo, se concretizar? Você trabalhou sozinho ou com a ajuda de colegas?

No início, não pensava em escrever um dicionário. O que fazia era estudar as disciplinas jurídicas na faculdade e simultaneamente ler livros das disciplinas correspondentes nos EUA. Por exemplo, lia na faculdade o livro do Fábio Ulhoa Coelho, o clássico Direito Comercial. E ao mesmo tempo lia em casa o livro ‘The Law of Corporations’, de Robert Hamilton.

O método seguido foi o da comparação. Lia uma expressão no livro em português, anotava em um rascunho. Ao me deparar com a expressão correspondente no livro americano, transcrevia para outro arquivo e citava a referência.

E foi assim durante todo o curso. Por isso o Dicionário é tão abrangente, pois cobri todas as disciplinas estudadas na faculdade, desde Direito de Família, passando por Direito Tributário, Societário, Comercial, Constitucional e assim por diante.

E isso me ajudava bastante nas traduções. Ao realizar esse estudo, ganhava não só velocidade de trabalho, mas também confiança sobre quais termos e expressões utilizar.

Realizei este trabalho sozinho. No início, não pensava em vender. Só comecei a comercializá-lo em 2007, pois muitas pessoas começaram a pedir cópias da obra.

Outro fator que me encorajou a realizar esta pesquisa foi a ausência de obras similares no mercado. Os dicionários então existentes eram apenas apanhados de termos, falhavam ao não traduzir expressões e não citavam referências bibliográficas.

Esse foi outro aspecto que sempre busquei seguir: citação de referências bibliográficas. Na Faculdade de Direito, os professores tiram pontos do aluno sempre que ele não cita a bibliografia ou seus fundamentos em testes e trabalhos. Busquei seguir este modelo, pois o embasamento em referências bibliográficas é fundamental para conferir credibilidade a qualquer estudo acadêmico ou prático.

Quanto ao tempo para concretizar o trabalho, até agora são 11 anos. Mas ainda não terminei. E nunca vou terminar, pois de fato é impossível terminar um dicionário.

4. Como decidiu quais termos incluir no dicionário?

Sempre busquei ser coerente na escolha dos termos. Evitava aquilo que não fosse relacionado com o Direito, Economia e Contabilidade. Mas tudo que se enquadrasse nestas ciências, eu acrescentava à obra. Mesmo que parecesse desnecessário, pois poderia ser útil em alguma tradução no futuro.

5. Daria para você nos falar sobre os recursos utilizados na coleta da terminologia?

Minhas principais referências são livros e meus próprios trabalhos. Uma ótima ferramenta é o site amazon.com. Sem esse site, teria sido bastante difícil para eu adquirir toda a bibliografia estrangeira utilizada.

Vou dar um exemplo de escolha de bibliografia. No estudo de Economia, busquei o melhor livro existente no Brasil, um manual que fosse a ‘bíblia’ das Universidades de Economia. Esta obra é o famoso ‘Manual de Economia dos Professores da USP’.

E o melhor manual de Economia em inglês, e talvez em todo o mundo, é o famoso ‘Principles of Economics” de Gregory Mankiw. Basta uma pesquisa no amazon.com para descobrir que este é não apenas o manual mais vendido, mas também o mais elogiado por todos os outros usuários.

Realizei o mesmo com Contabilidade. O livro mais importante sobre o tema no Brasil é o famoso ‘Manual de Contabilidade das Sociedades por Ações da Fipecafi’. E a obra mais vendida nos EUA é o ‘Accounting’ de Carl Warren. Estes quatro livros foram comparados nos mínimos detalhes na elaboração da obra.

6. Um aspecto particularmente útil no seu dicionário são os exemplos dados para ilustrar quando/como um determinado termo deve ser usado. Isso foi o resultado de sua própria pesquisa durante trabalhos de tradução?

Dicionário Marcílio Moreira de Castro

Claro! Outro recurso importante é a prática diária de tradução. Todavia, no dia a dia, nós tradutores não temos tempo para investigar e pesquisar nos mínimos detalhes cada novo termo ou expressão. O que faço então é manter um arquivo do MS Word que chamo de ‘Rascunho’.

Copio e colo neste arquivo todos os novos termos e expressões que encontro nos trabalhos que realizo. E de tempos em tempos fecho minha agenda para trabalhos externos e passo a limpo este rascunho, acrescentando centenas de novos verbetes e expressões no Dicionário, buscando sempre referências bibliográficas para corroboração.

Outras excelentes fontes de pesquisa, que recomendo, são a revista The Economist e o jornal Valor Econômico. Todo dia leio algum artigo e copio e colo no arquivo de rascunho novos termos e expressões de Economia.

Outras fontes muito importantes são os Informativos de Jurisprudência do Supremo Tribunal Federal e do Superior Tribunal de Justiça. Leio-os semanalmente para buscar novas expressões jurídicas. E busco sempre comparar com os informativos de jurisprudência da Suprema Corte dos Estados Unidos, publicados no site FindLaw.com.

Outra fonte importante de informações para o Dicionário são os vários e-mails que recebo diariamente de tradutores de todas as partes com dúvidas sobre tradução jurídica. Sempre respondo as questões e muitas delas depois são acrescentadas ao Dicionário. Meu e-mail é marciliomcastro@gmail.com e todos os colegas tradutores da ATA são muito bem-vindos a escrever.

7. Que dicas você daria para quem não está acostumado a fazer traduções jurídicas, mas de repente se defronta com esse tipo de documento?

Não se intimide diante do ‘juridiquês’. Muitas vezes uma frase empolada pode ser traduzida de forma simples. Por exemplo, recebi um e-mail de uma tradutora há poucos dias perguntando como poderia traduzir a frase: ‘O autor se enquadra na hipótese legal de miserabilidade’. A melhor tradução é muito simples: ‘The plaintiff is legally poor’.

8. Você está trabalhando em algum outro dicionário ou tem alguma previsão de uma próxima edição?

Será publicada a tradução que realizei de um livro de quase 1.000 páginas abordando o Direito Inglês. Foi uma ótima experiência, em que pude me aprofundar bastante no Direito Britânico. Também estou realizando muitas palestras pelo Brasil sobre tradução jurídica.

Além disso, meu rascunho de novos termos e expressões já contém mais de 400 páginas, que precisam ser passadas a limpo e incluídas no Dicionário. Pretendo lançar uma nova edição a cada três anos. A atual é de 2010, quem sabe a próxima não vem em 2013?

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