Como foi o congresso da ABRATES 2016

| 0 comments

abrates 2016

Thais Aux

No início de junho (dias 3, 4 e 5) aconteceu o 7º Congresso da Abrates – Associação Brasileira de Tradutores e Intérpretes no Rio de Janeiro. Foi a minha primeira vez no evento e aprendi muito com todas as palestras que rolaram durante os três dias.

A abertura na sexta-feira já começou bem: Cora Ronai, filha de Paulo Ronai, o húngaro que aprendeu português traduzindo poesia e acabou estabelecendo vida e carreira no Brasil. Cora relembrou os nomes constantes em sua casa, como Carlos Drummond de Andrade e Aurélio Buarque de Holanda ―ele mesmo, o do dicionário! Para ela, a tradução é tão natural como o sol, o céu, o mar… Ela mesma se dedicou ao ofício, se tornou escritora e é antenadíssima em seu tempo, como é possível ver em sua página do Facebook. Maravilhosa!

Destaco ainda a belíssima interpretação do hino nacional em Libras por Paloma Bueno Fernandes, que levou muitas pessoas às lágrimas!

As 5 Melhores Palestras do Evento

mabel

Crédito: Thais Aux

1 – Mabel Cesar e Rayani Immediato – Tradução para dublagem

No sábado, as coisas já começaram bem cedinho! A primeira palestra a que assisti foi com Mabel Cezar e Rayani Immediato sobre dublagem. Elas contaram uma história linda de um cara―o Charles― que é cego e foi prestigiá-las em uma palestra na semana anterior. Ele disse que, se não fosse por elas, ele jamais teria acesso aos filmes e séries de que tanto gosta. Todos ficaram emocionados.

Elas explicaram um pouquinho mais sobre como funciona a tradução para a dublagem e como, às vezes, é preciso alterar algumas palavras no estúdio para caberem direitinho na boca do ator ou do personagem de desenho animado.

Também foi citada a importância de não se trocar as vozes consagradas de personagens famosos, porém disseram que muitas vezes os estúdios não estão nem aí e trocam mesmo ―para o desespero delas! Outro problema citado foram os prazos curtíssimos que elas têm para traduzir e dublar algumas coisas que saem com erros e acabam sendo eternizadas sem a possibilidade de modificação posterior.

Eu não sabia exatamente como funcionava todo o processo da dublagem e, depois da palestra, já sei tudinho. Foi ótimo!

 

candice

Crédito: Candice Soldatelli ― Divulgação

2 – Candice Soldatelli – Os bastidores da tradução literária

Depois, corri para o auditório para assistir à palestra de Candice Soldatelli sobre a tradução do livro The Masked Rider, de Neil Peart, baterista da banda Rush. Ela explicou todo o processo, desde o recebimento do livro, a troca com as editoras, a ajuda que teve de seus professores, a discussão de termos e tudo o mais. A parte mais legal foi sobre a troca de e-mail com o próprio Neil, que foi mega solícito, um verdadeiro gentleman, deixando assim o trabalho dela ainda mais impecável. Demais!

(A palestra foi tão maravilhosa que nem tirei foto, só fiquei prestando atenção.)

 

Crédito: Thais Aux

Crédito: Thais Aux

3 – Adriana de Araújo Sobota – Como trabalhar com agências de tradução

Essa palestra foi MEGA esclarecedora para quem está começando na área da tradução técnica. A Adriana de Araújo Sobota, que é a coordenadora pedagógica do Netwire Learning Center, deu todo o passo a passo de como enviar currículo, os valores praticados, as ferramentas essenciais e os segredos que ninguém conta.

Ela destacou a importância de se valorizar o próprio trabalho, até para que a profissão se fortaleça. A união faz a força! Fiquem atentos e não aceitem qualquer trabalho, ok?

 

Crédito: Thais Aux

Crédito: Thais Aux

4 – Ricardo Souza – Pontes relutantes

No domingo bem cedinho, às 8 da manhã, Ricardo Souza deu uma palestra incrível sobre a distância que existe entre a prática da tradução e o mundo acadêmico. Segundo ele, os tradutores técnicos são focados na produtividade, em entregar trabalhos, em conhecer tudo sobre CAT Tools e tudo o mais, enquanto o meio acadêmico estuda tradução e não tem consciência nenhuma desses processos, focando seus estudos em teorias linguísticas e debruçando-se sobre traduções literárias. Afinal, será que esses mundos não se cruzam? Será que a tradução técnica e a literária são tão distantes assim? A pensar.

 

Crédito: Thais Aux

Crédito: Thais Aux

5 – Isa Mara Lando – Traduções comparadas de A Christmas Carol

Essa, sem dúvida, foi a melhor palestra do evento para mim. Isa Mara Lando, a famosa autora do livro VocabuLando ―o preferidinho de todos os tradutores―, deu uma palestra fenomenal comparando as traduções do clássico A Christmas Carol, de Charles Dickens, cujo título ganhou diversas traduções, como “Conto de Natal”, “Canção de Natal” e “Hino de Natal”.

Ela pegou vários trechos do livro e colocou as esses trechos traduzidos por Heloísa Jahn e Ana Maria Machado. Assim ela foi seguindo, termo a termo, o que ficava melhor, o que não cabia bem, etc. E eu acho que essa é uma das grandes dúvidas dos tradutores, ali no processo de trabalho: qual é a melhor palavra para se usar aqui? Deixo mais solto? Deixo mais literal? Até onde posso ir? Claro que tudo deve estar de acordo com o que foi combinado com o editor, mas no geral, Isa Mara defende o texto mais fluido para os leitores brasileiros, usando nossas expressões populares ao substituir as expressões do inglês que não fariam sentido para nós.

Depois da palestra, tive o prazer de conversar com ela e comprei o livrinho que traz a tradução do conto “O Corvo” de Edgar Allan Poe, com direito a autógrafo. Demais!

Conclusão ― No geral, foi uma experiência excelente. É muito bom estar rodeada de gente que entende o seu ofício, trabalha de pijama em horários malucos e está sempre à procura do termo perfeito. Isso foi riquíssimo e só é possível em eventos desse porte.

Ano que vem, o congresso será em São Paulo. Para quem não conseguiu ir dessa vez, ou estava com dúvidas se valeria ou não a pena, só posso dizer que vale MUITO a pena sim. Acho que todo tradutor tem que ir pelo menos uma vez na vida! O programa geralmente cobre uma diversidade enorme de assuntos, então seja você da área literária, técnica ou de interpretação, tem espaço para todos. Até 2017! 😉


NOTA DA EDIÇÃO: O artigo foi publicado originalmente no blog da autora.


thais auxTHAIS AUX iniciou a carreira como jornalista e trabalha com tradução editorial (EN > PT-BR) há mais de 8 anos, traduzindo títulos para o público infanto-juvenil, como álbuns de figurinhas e histórias em quadrinhos. É aluna do curso Tradução 360° do Netwire Learning Center e do Curso de Formação de Tradutores Literários da Casa Guilherme de Almeida.

Leave a Reply

Required fields are marked *.



× seven = 7