Featured Blog – December 2012

December 20, 2012 | 0 comments

Brazil and Portugal, two countries separated by a common language

by Fabio M. Said

As a Portuguese translator working in Germany, when talking to a prospect about a translation project, I always check if the prospect needs the translation done in a Portuguese dialect that I am able to translate into. I was born in Brazil, I spent the first 30 years of my life in Brazil, and I was educated in Brazil. I have had only limited exposure to European Portuguese (mostly talking casually and briefly to people from Portugal and reading some texts written in European Portuguese) and no exposure at all to other Portuguese dialects spoken in Africa. So I would hardly accept any job offer to translate into a dialect other than Brazilian Portuguese, nor would it be ethical on my part to accept such an offer. And that is what I try to explain to prospects.

Buyers of translation who contact me rarely know that Brazilian Portuguese differs substantially from European Portuguese. Major differences include not only everyday colloquial language (words, style, spelling, even grammar), but also specialized vocabulary. They are still the same language (“Brazilian” is not a language), but with highly specialized dialects. After all, Brazil and Portugal have developed differently in the past two hundred years, and, of course, their separate historical paths have impacted on their local dialects and on the mutual understandability between speakers of each variant. To quote from Bernard Shaw, they are like “two countries separated by a common language.”

It is precisely those differences that make it extremely important for a translation buyer to know which language dialect their text should be translated into. A text written in Brazilian Portuguese will most likely not be understood correctly by an average native speaker of European Portuguese, and vice-versa. Yes, the overall message would, perhaps, be understood, but not the nuances, details and between-the-lines information. It could come across as funny, awkward or even plain wrong. This is an even more important point to consider if communicating effectively is really a top priority. Those who just “want that translation done” may very well hire a Brazilian to translate a text and give the translation to readers in Portugal, or, worse still, commission a native speaker of European Portuguese to proofread a translation into Brazilian Portuguese. Some people have even asked me to translate texts into a fairy-tale entity called “neutral” Portuguese that could be used in Brazil, Portugal or Africa, and I politely turn down the offers, explaining that there is no such thing as “neutral,” or globally “standard,” Portuguese. But those who demand the highest quality in translation and who know that communicating effectively—i.e. targeting the message to the specific audience one wants to reach—is key to the success of a product or service would never want to do such things. And they usually have no problem accepting that a native speaker of Brazilian Portuguese should translate into Brazilian Portuguese and a native speaker of European Portuguese should translate into European Portuguese.

But what about the Portuguese language spelling reform that has been in force in Brazil since January 2009 and in Portugal since mid-2011? The reason behind the spelling reform was to make Portuguese a uniform language globally, thereby making it easier to perform internet searches and understand Portuguese documents on the Web, no matter which Portuguese dialect these were written in. But this is utopia. The spelling reform only changes about 0.5% of Brazilian Portuguese words and about 1.5% of European Portuguese words. Besides, the reform only applies to the spelling, and not to other language elements like syntax, regionally/culturally specific vocabulary, grammar, and pronunciation. So this reform will not unify the two variants into one “standard” language—at least not in the current scenario.

And, most important of all, the new spelling reform will not change the fact that translation buyers need a native speaker of Brazilian Portuguese for a translation that will be used in Brazil and a native speaker of European Portuguese for a translation that will be used in Portugal. But this, of course, only applies to translation buyers who really want high-quality translation and effective communication, which—I am sure—you do.

Featured Blog – November 2012

November 21, 2012 | 0 comments

Tradução audiovisual e “censura”

by Carolina Alfaro de Carvalho

Antes de mais nada, uma pergunta: onde quer que você more, seja no Brasil ou em algum outro país, qual é a sua impressão sobre o linguajar usado em legendagem e dublagem de filmes comerciais, em cinemas e canais de TV? Ele tende a ser conservador ou explícito em termos de termos ofensivos, expletivos, escatologia, etc.? Você já criticou negativamente uma tradução por ser “careta” demais? E já se indignou com uma tradução que, na sua opinião, tinha excesso de palavrões?

Quem já esteve do lado dos bastidores da legendagem sabe que os clientes, sobretudo dos meios de entretenimento (circuito de cinema, TV e DVD), têm manuais extensos com várias regras a serem seguidas. Não falo só de questões técnicas como a relação entre a duração da fala e o máximo de caracteres permitidos, mas também de vocabulário e estilo. Muitos não permitem o uso de linguagem de baixo calão ou, no mínimo, pedem para amenizá-la; canais de TV muitas vezes têm restrição a merchandising na tradução, mesmo que uma marca seja dita explicitamente no filme; e há diversas preocupações com a correção da linguagem escrita.

Geralmente, o resultado ainda fica dentro do razoável. O objetivo da legendagem é transmitir a mensagem de uma forma bem mais concisa, pois nós demoramos bem mais tempo para ler uma frase escrita do que para entender uma frase oral, então muitas nuances acabam ficando de fora. As dificuldades são muitas, mas na maioria das vezes o estilo condiz com o contexto.

Às vezes, o cliente — seja a distribuidora do filme ou o canal de TV a cabo, por exemplo — é excessivamente cauteloso ou impõe regras demais sem considerar cada tipo diferente de material, e a tradução acaba ficando “careta” demais, a ponto de causar um efeito quase ridículo. Nesses casos, muitos espectadores, e tradutores também, percebem e reclamam da “censura” à tradução.

No caso de filmes “independentes” ou para um público restrito, como o de um festival de cinema, a linguagem usada costuma ser mais livre.

Eu fiz um estudo bastante aprofundado sobre as diretrizes de controle da linguagem e escrevi um artigo que será publicado em breve em uma edição especial da revista Meta, que explora a relação entre tradução audiovisual e política. Passei um ano pensando e pesquisando esse assunto e, naturalmente, continuo reparando em discussões sobre o uso de linguagem de baixo calão em legendas. Então agora aproveito para reunir algumas situações interessantes relatadas na imprensa.

No dia 17 de novembro foram publicados dois artigos relacionados, um pela BBC News e outro pela Radio Times. Em resumo, a série dinamarquesa “Forbrydelsen” (traduzida em inglês como “The Killing” e também adaptada como remake americano com o mesmo nome) é exibida pela BBC no Reino Unido, na língua original — dinamarquês — com legendas em inglês. Tudo indica que a primeira temporada foi traduzida com tantos palavrões quanto os que eram ditos no original. Agora, para a segunda temporada, a BBC pediu à produtora responsável pela tradução para amenizar os palavrões. A instrução é a de que, quando um expletivo comportar diversas traduções possíveis, é melhor “pecar pelo excesso de cautela” em vez de optar pela forma mais forte. A justificativa para essa atitude seria a reclamação de um espectador que fala dinamarquês e teria dito que diversos expletivos foram traduzidos de maneira mais forte do que são entendidos em dinamarquês.

Eu não tenho como avaliar se quem reclamou tem razão ou não. Tudo indica que a maioria das pessoas viu a série, pelo visto traduzida com bastantes palavrões, e não se incomodou. Mas alguém achou que ficou pesado demais, sem necessidade. E, por conta dessa reclamação, a temporada seguinte vai ter uma tradução um pouco mais “família”. Nos artigos citados, entram também os argumentos da concisão e de que a legendagem é uma adaptação. E, como essa discussão saiu na imprensa, quem nem tinha parado para pensar no estilo e linguajar dessa tradução (sempre a imensa maioria do público) agora vai prestar mais atenção.

São os mesmos argumentos usados pelas produtoras brasileiras, que tendem a preferir não correr o risco de ofender ninguém, mesmo que isso implique uma amenização de toda a linguagem, para todos os espectadores. Esses argumentos são o cerne do estudo que eu fiz, e é interessante constatar que não são privilégio do Brasil (coisa que eu já sabia, mas sempre é bom frisar).

Outro fator que pesa muito é o da tradição. Desde sempre, nós assistimos filmes e programas estrangeiros com traduções amenizadas. O que nós consideramos “normal” já passa por um filtro.

Uma prova disso é este outro caso, de uns três anos atrás, mas que eu guardei porque achei fascinante. Em resumo, na décima temporada, a dublagem brasileira de “South Park” decidiu liberar o uso de palavrões. O programa em inglês tem linguajar bem pesado e, após bastante tempo, os produtores no Brasil parecem ter decidido que a versão em português também poderia ser mais explícita. A consequência foi o argumento, quase indignado, de que o registro dos diálogos em português estaria mais baixo do que em inglês. O exemplo citado é o de “fuck you” que, segundo o autor da matéria (não creditado), não deveria ser traduzido por “foda-se” e sim por “dane-se” (com ênclise, veja bem, pois é assim que as pessoas falam no dia a dia, não é?)

Admito que tenho dificuldade em compreender a conclusão da matéria: “Assim, (…) os pedófilos do clube repetem insistentemente frases que, se fossem ditas no inglês do desenho, não teriam uma conotação tão desrespeitosa para o Brasil.” No Brasil não se fala inglês então ninguém entenderia, mas me parece que o autor quis dizer que os diálogos em inglês são menos desrespeitosos do que os adaptados ao português.

Quer dizer: muita gente se queixa da “censura” ao linguajar das traduções de filmes, mas, na prática, a presença de palavrões ainda choca, dando a impressão de ser excessiva ou injustificada.

Eu também já vi (e ouvi relatos semelhantes de) gente que se choca com o linguajar de filmes nacionais. Não é difícil encontrar esse tipo de queixa na internet, de que os filmes brasileiros seriam muito mais vulgares, em termos de linguagem, do que os estrangeiros. É claro que isso não é verdade; há filmes com mais e com menos palavrões em qualquer país. Mas, primeiro, estamos habituados a assistir a materiais estrangeiros filtrados pela tradução e, segundo, palavrões na nossa língua materna causam muito mais impacto do que aqueles ditos em uma língua estrangeira que não está tão “entranhada” em nós. É por isso que “fuck you” parece mais suave do que “vá se foder”.

Outra experiência sempre interessante é nos vermos através dos olhos do estrangeiro, quando as nossas obras são traduzidas. De repente, é o gringo que nos traduziu que amenizou, pasteurizou, não captou nuances, perdeu detalhes que constituem a verdadeira alma daquela obra. É infalível: um crítico nunca consegue ser isento quando vê um pedacinho da cultura brasileira adaptado de forma que os estrangeiros compreendam, e acha aquilo um verdadeiro ultraje.

Veja esta matéria curiosíssima sobre a exibição de “Tropa de Elite” em Cannes, em 2008. Todas as expressões listadas visam ilustrar o quanto a tradução amenizou e neutralizou o filme, perdendo detalhes cruciais. Mas o artigo afirma que, apesar de tudo isso, o público conseguiu gostar do filme. Agora examine os exemplos e me diga sinceramente: algum deles está mal traduzido ou amenizado? Eu juro que não consegui detectar nenhum problema ali.

Sim, o problema é que o filme foi traduzido com interpretação simultânea, pois o público era falante de diversas línguas. A solução encontrada para fazer uma única exibição do filme e traduzi-lo em três línguas foi interpretá-lo. E a intérprete de inglês era mulher, o que, aparentemente, causou algum estranhamento, visto que quase todos os personagens do filme são homens. (Só sei que eu pagaria muito, mas muito mesmo, para eu não ser aquela intérprete.) Quer dizer, a modalidade de tradução pode ter dificultado o envolvimento com o filme, mas, na minha opinião, não há muito o que criticar na tradução em si.

Enfim, a conclusão é que não há unanimidade em termos de estilo em tradução audiovisual. Do ponto de vista do cliente, imagine ter que lidar com espectadores que ora reclamam da “censura” e do conservadorismo extremo das traduções, ora ficam indignados com o excesso de palavrões. É uma situação delicada.

Featured Blog – October 2012

October 5, 2012 | 0 comments

Do it Now! Do it Fast! Quality Not Required!

by Rafa Lombardino

I have to say I am really concerned about this new trend in literary translations in Brazil—hopefully it’s not a worldwide trend. We’ve all known about this horrible common practice in the translation industry, when companies hire irresponsible translation agencies that divide large documents into tiny little pieces, assign each part to a different translator, then put it all together without any reviewing process whatsoever, delivering a true Frankenstein back to the client and calling it a “translated document.” But applying this money-making client-deceiving model to literary translation while thinking nobody will notice it is naïve, to say the least. C’mon people!

Technical translators usually say, “I’m not really sure why I’m translating this… Nobody is ever gonna read it!” This sounds about right, albeit untrue and irrelevant—just do your job already—when you’re dealing with lengthy corporate documents that no one cares to scrutinize, until it’s too late and you have to deal with the aftermath of a breach of contract, an environmental accident, or an employee injury.

However, books are meant to be read and enjoyed. The purpose of literature is to make us reflect on the human condition, to help us escape our reality into a world of fantasy, to learn about ourselves while reading about the lives of others and situations we’ll hardly ever have a chance to experience in our entire lives. When books are translated like that, as quickly and carelessly as possible so they can be made available to the market and publishers can cash in with the latest bestseller celebrated abroad, readers will take notice and you won’t get away with it.

Perhaps the most well-known literary translation blunder in Brazil involves George R. R. Martin‘s “A Song of Ice and Fire.” Multinational publisher Leya acquired the rights to adapt the European Portuguese version translated by Jorge Candeias for Portugal publisher Saída de Emergência. That’s a common practice in technical translations when an agency wants to pay less for a translator to adapt European Portuguese into Brazilian Portuguese, instead of paying full price for the translation from the original language.

Needless to say, results were far from desirable, but the method was repeated to get books 1-4 published in Brazil. So, when the time came to translate “A Dance With Dragons,” the 5th book in the series, Leya tried a new approach and hired translators to work directly from the English original.

Wanna know what happened? The book hit the shelves with a chapter missing! Everything was probably done in such a hurry that Chapter 26 was MIA! After the damage was done, the publisher sent out apologies, made the chapter available as a PDF online not to interrupt the reading process of current buyers and recalled all copies in order to properly correct their mistake, which may have cost them $1 million Brazilian reais.

Then, a couple of days ago, I was reading this article that highlighted a few of the 50 translation mistakes made in the Brazilian version of Nigel Cliff’s The Last Crusade: The Epic Voyages of Vasco da Gama. The book became “Guerra Santa” [Holy War] in Brazil, was edited by Globo Livros and translated by Renato Rezende—who seems to have quite a few important book translations under his belt. The title had already hit the shelves when the publisher decided to add a little note about some mistakes:

“No livro Guerra Santa, por erro de tradução, onde se lê Calcutá, leia-se Calicute; onde se lê Ctésifo, leia-se Ctesifonte; onde se lê duque George, leia-se duque Jorge. E, nas páginas 346 e 347, onde se lê Kilwa, leia-se Quilon.”

As you can see, there were at least four mistakes that the publishers have acknowledged. The Ilustrada section of Folha de S. Paulo, one of the largest newspapers in Brazil, went into detail about another eight or ten errors. The ones that caught my eye were the literal “learning the ropes” as “conhecendo as cordas” [meeting / getting to know the ropes] (Delighted to make your acquaintance, Mr. and Mrs. Rope!) and “arrested” [to seize merchandise] translated as “arrastar” [to drag] just because the two words look alike…

It’s a shame that this account of such an important story about Vasco da Gama’s voyage to India, which inspired his rival Christopher Columbus to reach the Americas, will be forever tarnished in Brazil. Most readers who try to enjoy the book will be misinformed, to say the least. Others could have fun creating a drinking game: one shot of tequila for every translation mistake you’re able to spot.

You might ask, “How can you correct this situation?” Well, it’s simple! First of all, publishers must hire translators who actually know their stuff, who have a deep understanding of the source language, good researching skills, and the decency to understand, for example, that “fluvial” is an adjective that applies to rivers (as in “river course”) and, consequently, cannot be used in a sentence about ships venturing into the Indic and Pacific Oceans!

And, when you do find those translators, make sure you give enough time for the project to be completed. I understand publishers must be constantly pressed by competitors who may have similar titles in the works, but when you rush things, that’s likely the result you’re gonna get: a pie to the face that will affect the reputation of the publishing house, the translator, the book, and the author (yes, what do Mr. Cliff and Mr. Martin think about that?) and, ultimately and above all, disrespect the reader!

There, I said it!

More references:

  • Jorge Candeias’ blog A Lâmpada Mágica
  • Danilo Nogueira’s four-part saga on the Leya controversy: “O editor cenossão, o caso LeYa e o (des)acordo ortográfico”
  • Interview with Jorge Candeias about the adaptation of his European Portuguese translation for G. R. R. Martin’s books: “Português contesta adaptação em tradução para coleção ‘As Crônicas de Gelo e Fogo'”
  • Two articles on Nigel Cliff’s book: review and interview

(This text is also available in Portuguese: É pra ontem! Anda logo! Não precisa ficar bom!)