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February 20, 2013 | 0 comments

“Infestações” linguísticas

by Peterso Rissatti

Por indicação de amigos tradutores, estou utilizando agora o HootSuite, um agregador de Twitter que é muito bacana. Nele é possível definir tags (aqueles indicadores com #bla, o de tradução é #xl8) e acompanhar seu assunto preferido. Terça-feira foi um dia cheio, mas consegui marcar como favorito uma tuitada do @CopestoneTeam sobre a infestação linguística que os alemães tentam combater no idioma, transformando o idioma de Goethe no que eles chamam de Denglisch, ou alemanglês. Numa matéria do telegraph.uk, alguns especialistas comentam que a invasão e a mistura do inglês no idioma começa a causar problemas. Inclusive há uma campanha de respeito ao idioma alemão, liderado por Cornelius Sommer, ex-embaixador alemão que aponta os efeitos sociais da mistureba. De acordo com a matéria do site, ele comenta que “o uso do inglês em larga escala teria consequências sociais, pois grande parte da população – especialmente as gerações mais velhas que são menos proficientes em inglês – podem se sentir excluídas”.

Será que no Brasil temos esse problema?

O português, se não tiver errado, é bastante permissivo de um lado, mas ao mesmo tempo os estrangeirismos não são tão agressivos como para outros idiomas. Talvez por não termos o inglês tão facilmente amalgamado ao português (diferente de nossa cultura, que está toda tomada) ou porque grande parte da população ainda não fala inglês ou não fala o suficiente, o uso de anglicismos é bastante pontual. Tirando alguns grupos profissionais que teimam em se deixar dominar por “inglesices”,  acredito que ainda não haja (e me alertem se eu estiver pollyano demais) motivo para preocupação.

Um exemplo: mouse. Diferente de outros países, inclusive Portugal, que traduzem o aparelhinho por rato, ou o espanhol ratón, mouse não nos dá margem nenhuma para dúvida: é aquele negocinho que faz a setinha do computador mexer. O povo do Linux tentou impor uma tradução (acho que era dispositivos apontador, que remete aqueles apontadores quadradinhos e coloridos de lápis), mas não colou. E a confusão não se instalou.

Porém, mesmo com a tranquilidade aparente, temos de ter cuidado, principalmente com estruturas gramaticais e afins (vide o artigo ótimo do Danilo Nogueira aqui). Essas estão mais ameaçadas que o léxico em si. Além disso, precisamos evitar (e combater) absurdos com unhas e dentes, como “Delivery e entrega em domicílio” (como se fossem coisas diferentes), “printar”, gerundismos e afins. Na dúvida, uma olhadinha na gramática ou perguntadinha a algum amigo bom de português.

Assim não teremos de instituir a campanha “Salvem o português brasileiro”.

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January 20, 2013 | 1 Comment

O caso do Frankenstein luso-brasileiro

by Bianca Bold

Em agosto do ano passado, fiz a revisão de uma tradução bem peculiar, tanto que perguntei o nome do profissional à PM, pois queria ver se o conhecia ou se ele pertencia a algum dos fóruns de que participo. Minha intenção era dar uns toques a essa pessoa, mas como o nome dela não aparece em lugar algum da internet, resolvi escrever aqui. No final das contas, é até bom as dicas ficarem disponíveis publicamente, respeitando todo o sigilo necessário.

O que aconteceu?

O texto que a agência me enviou para revisar estava um verdadeiro Frankenstein luso-brasileiro. Sem demora, perguntei à PM se eu tinha entendido certo, que o texto era para o público brasileiro e comentei sobre o problema. Espantada, a PM confirmou que sim, não só o texto era brasileiro, como também a tradutora. Conversamos uns minutos pelo Skype, tentando entender como é que uma brasileira pode escrever trechos em português europeu num texto destinado ao Brasil. A resposta não tardou: culpa da TM, que estava uma salada! Percebi que todas as ocorrências de português europeu apareciam como 100% match.

De quem é a culpa?

Bom, a PM deve ser a culpada pela confusão com as TMs, pois ela sempre envia um arquivo atualizado a cada serviço.

O desconto aplicado pela agência por 100% matches deve ser o culpado pela “falta de atenção” da tradutora aos segmentos 100% “cuspidos” pela TM do cliente.

Em tempo, não era nada sutil. Foram mantidas frases inteiras que soam completamente estranhas aos ouvidos brasileiros, coisas como “inquérito” (em vez de “pesquisa”), “contacto”, “estamos a fazer”, “secção”, além daquelas frases com sujeito oculto quando brazucas usariam um “você” naturalmente, e muito mais. Também não foi uma única frase perdida… foram pelo menos três parágrafos.

O que a tradutora deveria ter feito?

A meu ver, nada justifica um profissional entregar um texto contendo duas variantes de um idioma sem ao menos se dar o trabalho de questionar ou informar o cliente sobre a situação.

Eu entendo que nenhum profissional quer ter o trabalho de retraduzir algo quando a TM deixa a desejar, e o cliente não está pagando a tarifa cheia. O problema poderia ter sido rapidamente solucionado com um e-mail ou papo no Skype, chutando a bola para o outro campo.

PM não é bicho nem inimigo do tradutor. A ideia é que esse profissional esteja disponível para solucionar problemas com o projeto. Não entendo como um tradutor detecta um problema assim e não comunica ao cliente. E considero o caso muito pior se o tradutor nem tiver lido o texto. A impressão que me dá é que a tradutora em questão (1) nem leu o texto “cuspido” pela TM ou (2) leu e não estava nem aí para a qualidade nem a satisfação do cliente. Também desconfio que essa pessoa não faça uma leitura final do texto, que considero essencial. E é, ainda, um indício de que ela não usa corretor ortográfico.

E o lado bom de tudo isso?

Talvez a agência tenha aprendido uma lição, pois a PM comentou que deixou de contratar uma colega competentíssima para esse projeto porque “o orçamento do cliente final estava curto” para pagar a tarifa dela pela tradução.

Do meu lado, nem considero os trocados que ganhei a mais com a cirurgia plástica do Frankenstein (já que o cliente me paga por hora). Mas há um resultado óbvio da lei do mais forte ou, no caso, do mais competente. Enquanto esse profissional caiu no conceito da PM, que ficou muito decepcionada, eu fui considerada a salvadora da pátria: “Thank God you’re editing!” foram as palavras dela.