June 21, 2017
0 comments

Metáforas da tradução: O que significa ser um bom tradutor?

Photo Credit: Diagramativo

Photo Credit: Diagramativo

Maíra Monteiro

Na abertura do VIII Congresso da Associação Brasileira de Tradutores (ABRATES), o brilhante professor Leandro Karnal nos brindou com belas metáforas sobre o que significa traduzir e ser um bom tradutor. Uma delas, a dos “cegos e o elefante”, reflete o papel do tradutor como mediador de culturas. Já o conto humorístico “O tradutor cleptomaníaco“, de Dezsö Kosztolányi, também mencionado por Karnal, brinca com a possibilidade de se ferir loucamente a ética da profissão com manobras impensáveis.

Vamos começar com a história dos cegos e do elefante. Certo dia, um príncipe mandou chamar um grupo de cegos em seu castelo, mandou trazer um elefante e o colocou diante do grupo. Em seguida, foi levando os cegos até o elefante para que o apalpassem. Um apalpava a barriga, outro a cauda, outro a tromba. Então, o que tinha apalpado a barriga disse que o elefante era como uma enorme parede. O que tinha apalpado a cauda discordou e disse que o elefante se parecia mais com uma corda. Por fim, o que tinha apalpado a tromba interferiu: “Vocês estão por fora. O elefante é mangueira de água…”.
Enquanto os cegos se envolveram numa discussão sem fim, cada um querendo provar que os outros estavam errados de acordo com sua própria experiência, o tradutor é aquele que vê que o elefante é tudo o que foi dito. Transpondo a metáfora para o mundo da tradução, o elefante representa a polissemia das palavras. Uma palavra pode ter diferentes acepções na mesma cultura e entre culturas diferentes de acordo com o contexto. O tradutor é aquele que aceita e concilia essas diferentes visões de mundo em seu trabalho fazendo escolhas muitas vezes difíceis.

Ao contrário do que foi ilustrado acima, o tradutor cleptomaníaco do conto de Kosztolányi não cumpre o primeiro mandamento da boa tradução: não roubarás (ou omitirás) palavras. Esse princípio está na base da ética da profissão. Com certeza, profissionais como você não sofrem desse mal, mas transcrevi o conto abaixo apenas para alegrar seu dia. 😉

 

kosztolanyi

O TRADUTOR CLEPTOMANÍACO
e outras histórias de Kornél Esti
Dezsö Kosztolányi

Falávamos de escritores e poetas, de velhos amigos, com que começamos a jornada, mas que depois se distanciaram e desapareceram. De quando em quando lançávamos um nome ao ar. Quem se lembra dele? Balançávamos a cabeça e um pálido sorriso se esboçava em nossos lábios. No espelho de nossos olhos surgia um rosto esquecido, uma carreira e uma vida perdidas. Quem sabe algo sobre ele? Viverá ainda? O silêncio respondia à pergunta. Neste silêncio, a coroa de flores de sua glória farfalhava, como farfalhavam as folhas no cemitério. Calávamo-nos.

Ficamos assim durante minutos, até que alguém evocou o nome de Gallus. — Pobre sujeito — disse Kornél Esti—, encontrei-o anos atrás – , mas já faz sete ou oito anos, sob condições muito tristes. Foi quando lhe aconteceu algo relacionado com uma novela policial, algo que também havia sido uma história policial, a mais emocionante e mais dolorosa que já vivi. Porque vocês o conheciam, um pouco, ao menos. Era um garoto talentoso, eletrizante, intuitivo, consciencioso e culto também. Falava várias línguas. Sabia inglês tão bem, que dizem que o príncipe de Gales tomara aulas particulares com ele. Havia morado quatro anos em Cambridge.

Mas tinha um defeito fatal. Não, não bebia. Mas surrupiava tudo que estava ao alcance de sua mão. Roubava como uma ave de rapina. Tanto lhe fazia se se tratava de um relógio de bolso, chinelos ou um enorme duto para chaminé. E não se preocupava também com o valor dos artigos roubados, nem com o seu volume e dimensões. Geralmente não se importava com a sua utilidade. Seu prazer consistia simplesmente em fazer aquilo que queria: roubar. Nós, os seus amigos mais próximos, nos esforçávamos para trazê-lo à razão. Falávamos à sua alma, carinhosamente. Repreendíamos e ameaçávamos. Ele concordava conosco. Prometia sempre lutar contra sua natureza. Mas a razão não vencia, sua natureza era mais forte. Sempre recaía.

Quantas vezes desconhecidos não o repreenderam, e não o humilharam em lugares públicos, quantas vezes não o flagraram, e, nessas ocasiões, tínhamos de tomar atitudes inacreditáveis para minimizar as conseqüências de seus atos. Certa vez, porém, no expresso para Viena, foi surpreendido por um comerciante morávio ao aliviá-lo de sua carteira, e entregue à polícia na estação mais próxima. Trouxeram-no algemado para Budapeste.

Tentamos salvá-lo de novo. Vocês, que escrevem, sabem que tudo é decidido pelas palavras: tanto o valor de um poema como o destino de um homem. Tentamos provar que ele era um cleptomaníaco e não um ladrão. Aquele que conhecemos geralmente é cleptomaníaco. Aquele que não conhecemos geralmente é ladrão. O tribunal não o conhecia; assim foi qualificado — ladrão, e condenado a dois anos de prisão.

Depois de libertado, numa sombria manhã de dezembro, próximo ao Natal, apareceu-me, esfomeado, esfarrapado. Jogou-se a meus pés. Implorou que eu não o abandonasse, que o ajudasse, que lhe arrumasse trabalho. Escrever sob seu próprio nome estava fora de qualquer cogitação. Nada sabia fazer, porém, senão escrever. Procurei então um editor honesto e humano, recomendei-o, e no dia seguinte o editor incumbiu-o da tradução de uma novela inglesa de detetives. Era um daqueles lixos com os quais nós não queremos sujar as mãos. Não o lemos. No máximo o traduzimos, usando luvas. Seu título — até hoje me lembro —, “O misterioso castelo do conde Vitsislav”. Mas que importava? Fiquei feliz por ajudá-lo, ele feliz por poder comer e assim começou o trabalho. Trabalhou com tanto afinco que em duas semanas — muito antes do prazo — entregou o manuscrito.

Fiquei extremamente surpreso quando, passados alguns dias, o editor me comunicou que a tradução do meu protegido era totalmente inutilizável, e por isso não estava disposto a pagar nenhum vintém. Não entendi bem. Fui até lá de táxi.

O editor, sem nada dizer, entregou-me o manuscrito. Nosso amigo o datilografara com capricho, numerara as páginas, até as prendera com uma fita com as cores nacionais. Isso era muito dele, pois — acho que já disse —, em questões de literatura, era preciso e escrupulosamente meticuloso. Comecei a ler o texto. Soltei um grito de admiração. Frases claras, mudanças engenhosas, montagens lingüísticas espirituosas se sucediam, muito mais digna que o original. Espantado, perguntei ao editor que defeito tinha encontrado. Ele me entregou original inglês, de forma tão silenciosa quanto fez com o manuscrito, e pediu-me para comparar os dois textos. Por meia hora, mergulhei alternadamente no original e no manuscrito. Ao final, levantei-me consternado. Declarei que ele estava com toda a razão.

Por quê? Nem tentem adivinhar. Estão enganados. Não tentou contrabandear o texto de um outro original. Era realmente “O misterioso castelo do conde Vitsislav”, numa tradução fluente, artistíca, e por vezes poética. Estão novamente enganados. O texto não continha nenhum escorregão. Afinal, ele sabia inglês e húngaro perfeitamente Parem de tentar. Disso vocês nunca ouviram falar. A mancada foi outra. Totalmente outra.

Eu também descobri aos poucos, gradualmente. Prestem atenção. A primeira frase do original inglês dizia assim: “As trinta e seis janelas do velho castelo, desgastado pelo vento, brilhavam. No primeiro andar, na salão de baile, quatro lustres de cristal iluminavam luxuosamente. Na tradução húngara estava: “As dezessete janelas do castelo, desgastado pelo vento, brilhavam. No primeiro andar, dois lustres de cristal iluminavam luxuosamente”. Arregalei meus olhos e continuei a leitura. Na terceira página, o escritor inglês dizia: “Com um sorriso irônico, o conde Vitsislav abriu sua carteira recheada e atirou a quantia pedida, mil e quinhentas libras…” Isso foi interpretado da seguinte forma pelo tradutor húngaro: “Com um sorriso irônico, o conde Vitsislav abriu sua carteira e atirou a quantia pedida, cento e cinqüenta libras…”

Tive uma péssima premonição, que — felizmente se tornou uma certeza nos minutos seguintes. Mais abaixo, no fim da terceira página, li na edição inglesa: “A condessa Eleonora estava sentada num dos cantos do salão de baile, vestida para a noite, usando as velhas jóias da família: tiara de diamantes, herdada da sua tataravó, esposa de um príncipe alemão;sobre seu colo de cisne, pérolas verdadeiras de brilho opaco; seus dedos quase se enrijeciam com os anéis de brilhante, safira, esmeralda.

O manuscrito húngaro, para minha grande surpresa, assim trazia: “ A condessa Eleonora estava sentada num dos cantos do salão de baile, vestida para a noite…” Sem mais. A tiara de diamantes, o colar de pérolas, os anéis de brilhante, safira e esmeralda haviam desaparecido. Compreendem o que fizera esse infeliz escritor, merecedor de um futuro melhor? Simplesmente roubou as jóias de família da condessa Eleonora, e, com a mesma imperdoável leviandade, roubou até o simpático conde Vitsislav, deixando das suas mil e quinhentas libras apenas cento e cinqüenta,e da mesma forma surrupiou dois dos quatro lustres de cristal, e desviou vinte e quatro das trinta e seis janelas do velho castelo desgastado pelo vento. Tudo começou a girar ao meu redor. Minha surpresa só aumentou quando constatei, sem nenhuma dúvida, que essa determinação percorria todo o seu trabalho. Por onde sua pena de tradutor passasse, sempre causava prejuízo aos personagens, mesmo que só se apresentassem naquele capítulo, e, sem respeitar móvel ou imóvel, atropelava a quase indiscutível sacralidade da propriedade privada. Trabalhava de várias maneiras. Na maioria das vezes, os objetos desapareciam sem mais nem menos. Aqueles cofres, talheres de prata, cuja missão era enobrecer o original inglês, não os encontrei em nenhum lugar no manuscrito húngaro. Em outros casos só tirava uma parte, a metade ou dois terços. Se alguém mandava o criado levar cinco malas para a cabine do trem, ele só mencionava duas; sobre as outras três silenciava sorrateiramente. De todos os casos, para mim, o pior — porque isso decididamente mostrava má intenção e falta de hombridade — era que com freqüência trocava as pedras e metais preciosos por outros sem nobreza e sem valor; a platina por lata, o ouro por latão, o diamante por zircotina ou vidro.

Despedi-me do editor, cabisbaixo. Por curiosidade, pedi emprestado o manuscrito e o original inglês. Como estava intrigado pelo verdadeiro enigma dessa novela policial, continuei em casa minha investigação, e fiz um balanço completo dos artigos roubados. Trabalhei sem parar da uma e meia da tarde até seis e meia da manhã. Descobri, finalmente, que nosso desvirtuoso colega escritor apropriou do original inglês, durante a tradução, ilegal e indecentemente, 1.579.251 libras esterlinas, 177 anéis de ouro, 947 colares de pérola, 181 relógios de bolso, 309 brincos, 435 malas, sem falar das propriedades, florestas e pastos, castelos de príncipes e barões, e outros objetos menores, lenços, palitos de dente, campainhas, cuja listagem seriamuito comprida e talvez inútil. Onde colocou todos esses móveis e imóveis que afinal só existiam no papel, no reino da imaginação; qual era a razão do seu furto; a investigação iria muito longe e assim melhor nem especular. Mas tudo isso me convenceu de que ele ainda era escravo de seu vício criminoso, ou da doença, e não existia nenhuma esperança de cura, e não merecia ser amparado pela sociedade honesta. Retirei minha proteção devido à minha indignação moral. Entreguei-o ao destino. Depois, nunca mais ouvi falar dele.


NOTA DO EDITOR: Este texto foi publicado originalmente o blog da autora.


MaíraMAÍRA MONTEIRO é graduada e licenciada em Letras (Inglês – Literaturas) pela UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) e especialista em Tradução e Interpretação de Conferência pela UGF (Universidade Gama Filho). Atua como tradutora e revisora de língua inglesa no setor de localização há dez anos. Suas principais áreas de trabalho são tecnologia da informação, turismo e hotelaria, marketing, entre outros. É credenciada à ABRATES desde 2014.

June 7, 2017
0 comments

Como ganhar mais traduzindo

abrates

Maria Helena Giordano

Nos dias 26 e 27 de maio de 2017, participei do VIII Congresso Internacional da Associação Brasileira de Tradutores (ABRATES), evento realizado no Centro de Convenções Rebouças em São Paulo. Participei de várias palestras, mas achei muito interessante uma sobre “Como ganhar mais traduzindo”, pois a autora deu dicas essenciais para a produtividade e avaliou as categorias das agências de traduções.

A palestra foi apresentada pela tradutora Val Ivonica, que primeiramente mencionou que, para se ganhar dinheiro traduzindo, é importante definir o valor mínimo e o máximo que se deseja cobrar. Depois de estabelecer o preço com o cliente, precisamos aumentá-lo periodicamente e, para quem quiser cobrar mais, ajuda muito ter especialização em determinada área e informar o cliente sobre isso. Prestar serviços relacionados com a tradução, como converter arquivos por exemplo, agrega também valor à sua imagem e você pode cobrar um diferencial por isso.

Val comparou os serviços de uma agência de tradução com uma pirâmide. O cliente recorre a uma agência e esta, por ter muitos clientes, recorre a uma segunda agência com o objetivo de terceirizar. Essa segunda, por vez, recorre também a uma terceira agência e assim por diante. Portanto, quanto mais baixa a agência estiver na pirâmide, mais baixo será o valor pago ao tradutor. No Brasil, a maioria das agências está colocada no patamar mais baixo. Assim sendo, o ideal seria aceitar trabalhos no patamar mais alto da pirâmide para poder ganhar mais.

Photo Credit: ABRATES

Photo Credit: ABRATES

A palestrante destacou os fatores que devem ser considerados para aumentar a produtividade. A primeira coisa seria usar ferramentas CAT e de auxílio, como glossários, atalhos, predictive typing, etc.. Usar a tradução automática também foi uma sugestão, sendo que com isso é possível alcançar um rendimento de 6.000 a 8.000 palavras por dia, mas será necessário arcar com os custos das ferramentas, o que está na média de US$ 950,00. O ditado e a digitação rápida também são recursos utilizados para aumentar a produtividade, existindo atualmente tutoriais específicos para tanto.

Outro fator importante a se considerar, para uma maior rapidez, são os agregadores de conteúdo, como os dicionários e sites para referência. Val mencionou que usa o GoldenDic, um programa onde se pode incluir vários dicionários, sites de busca como Babylon, o glossário do Ivo Korytowski, a wikipédia brasileira e a americana, entre outros recursos de pesquisa. Segundo ela, o Copernic, um programa que busca as informações solicitadas na pasta do seu computador, também é interessante e otimiza o tempo do tradutor.

Por fim, para perder menos tempo, deve-se também levar em consideração o seguinte:

  • ter um equipamento decente
  • procurar se distrair menos e concentrar-se na tarefa a fazer
  • seguir a abordagem monotarefa
  • descansar 5 minutos após 20 a 30 minutos de trabalho (método Pomodoro)
  • alongar-se nos intervalos para retornar com maior energia
  • sair das redes sociais
  • monitorar o computador para verificar onde você gastou seu tempo
  • considerar os aspectos da ergonomia e fazer exercícios para os olhos

Enfim, Val concluiu que se o tradutor levar todos os fatores mencionados em consideração, a nossa produtividade será melhor e, consequentemente, o nosso ganho também. Para ela, precisamos ter sempre em mente que qualquer pequena mudança que possa parecer simples ou banal poderá fazer grande diferença no resultado final.

Para mais informações e slides da palestra, visite o blog da palestrante.


4E92A3AF-8857-4564-A6B5-51920FA8E190MARIA HELENA GIORDANO é tradutora e professora de inglês em Campinas, São Paulo. É formada pelo curso de Pós-Graduação de Tradução da Faculdade Estácio de Sá e membro da Associação Brasileira de Tradutores (ABRATES). No momento, participa do programa de mentoria Caminho das Pedras, organizado pela ABRATES, e é mentorada pela tradutora e membro da PLD Rafa Lombardino.

June 1, 2017
0 comments

A Message from ATA President David Rumsey

Our current ATA President, Mr. David Rumsey, spent the past few days visiting the city of São Paulo, in southeast Brazil. He was one of the guest speakers at the Brazilian Association of Translators and Interpreters (ABRATES) Conference, which welcomed 800 attendees last weekend.

Mr. Rumsey talked to a full audience about the U.S. Market for Translators and Interpreters. He also explained the importance of being an ATA member, the certification exam and how the Portuguese Language Division works.

According to him, Brazil holds the second largest population of ATA members outside the U.S., coming right after Canada. Before going back home, he left us a warm message about his experience in São Paulo, which we share here.

The next ABRATES Conference will be held in 2018 in the city of Rio de Janeiro.


eleniceELENICE BARBOSA DE ARAUJO is an independent EN<>PT-Br translator from Brazil who is based in São Paulo. She has a degree in translation and interpretation from Associação Alumni and a bachelor’s degree in Education from the Pontifical Catholic University of São Paulo (PUC-SP). In her 16 years as a professional translator, editor and proofreader, she has translated fiction and non-fiction books, as well as magazine articles for many publishing houses. Additionally, she produces and reviews editorial, institutional, and digital content for several companies. She teaches Translation Practice as a visiting teacher at the Department of Post Graduation and Continuing Studies (Cogeae) at PUC-SP.