July 12, 2017
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Diz a legenda…

abrates

Maria Helena Giordano

Nos dias 26 e 27 de maio de 2017, participei do VIII Congresso Internacional da Associação Brasileira de Tradutores (ABRATES), evento realizado no Centro de Convenções Rebouças em São Paulo. Dentre muitas palestras interessantes, decidi em ir a uma chamada “Diz a Legenda – Part Deux”, de Luiz Fernando Alves, tradutor com grande experiência profissional em legendagem, localização de games e transcrição.

O palestrante iniciou sua apresentação dizendo que, quando uma legenda não é bem traduzida, a tendência do público em geral é apontar o dedo para o tradutor. Entretanto, vários fatores podem contribuir para essa visão distorcida do público. A fim de esclarecer essa ideia, Luiz Fernando abriu a palestra dando uma visão geral da contextualização cultural da legendagem, resumindo assim a palestra que apresentou no congresso da ABRATES em 2016.

Segundo ele, o mercado de legendagem no Brasil é fragmentado. Entre os maiores usuários de legendagem estão a industria do cinema, os produtores de DVDs e serviços como Netflix e Amazon. De acordo com o diagrama abaixo, o produtor original envia o filme para o distribuidor que, por sua vez, o encaminha para a produtora local ou, às vezes, diretamente para o tradutor freelance. Como alternativa, a produtora local poderá enviar o filme para agências de traduções ou diretamente para o tradutor freelance. Finalmente, as agências de tradução enviam o filme para o tradutor freelance. Entretanto, quanto mais intermediários estiverem envolvidos no processo, menor será o ganho final do tradutor, o que pode afetar a qualidade da legenda. O ideal seria, então, existirem menos intermediários.

mercado de legendas

Outra questão interessante que Luiz Fernando mencionou, relacionada à qualidade da legendagem, foi a existência do fansubbing, ou seja, legendas de séries feitas por fãs, sem a autorização dos criadores. O termo foi criado para indicar a legendagem de desenhos animados japoneses para o inglês, e esses fãs atuam quando as obras ainda não foram lançadas oficialmente no país-alvo.

Segundo o palestrante, os fansubbers possuem profundo conhecimento das séries, o que muito tradutores às vezes não possuem, e trabalham geralmente mais rápido do que um profissional, produzindo uma alta qualidade proporcionada pela facilidade digital. Por isso, hoje em dia, muitos fansubbers já estão estruturados no trabalho de legendagem e tal fato vem ajudando a moldar o mercado profissional desde os anos 1980.

Em se tratando de apontar o dedo injustamente para o tradutor, o palestrante apontou oito motivos para uma legenda ser considerada ruim, sendo que sete deles não é culpa do tradutor.

  1. Roteiro sem vídeo
  2. Vídeo sem roteiro;
  3. Manual de estilo (palavra escrita e palavra falada, ex.: “ Eu te amo” x “Eu o amo”)
  4. Prazo curto
  5. Tradutor não nativo
  6. Idioma desconhecido pelo marcador
  7. Revisor/Revisão
  8. Profissional despreparado (este é o único exemplo de culpa do tradutor)

Por todos os  motivos citados acima, podemos concluir que o aparato criado para se obter um lucro maior, mais rapidamente, desqualifica o mercado da legendagem e não oferece as condições necessária para a produção de legendas adequadas.

luiz fernando alves

PHOTO CREDIT: Diagramativo

Para se ter uma legenda de melhor qualidade, o palestrante também ressaltou os fatores que os tradutores devem considerar antes de formular um orçamento ou até mesmo aceitar ou não um projeto:

  1. Duração do vídeo
  2. Idiomas envolvidos
  3. Assunto
  4. Disponibilidade de roteiro / transcrição
  5. Data do envio do material e prazo de entrega
  6. Formato inicial do vídeo
  7. Formato para a entrega final (legenda queimada)
  8. Prazo para a conclusão (baseado no prazo de entrega)

Luiz Fernando concluiu que o importante é denunciar as irregularidades. Ele explica que, na maioria das vezes, o tradutor não reclama para não criar conflito ―e desabafar na internet não resolve o problema. O importante seria comunicar-se com os distribuidores.

No final da apresentação, o palestrante forneceu um modelo de orçamento para legendagem, sugeriu uma bibliografia para leitura e ressaltou a importância das denúncias, pois só assim podemos melhorar o mercado de legendagem no Brasil. Por fim, ele salientou mais uma vez que é injusto apontar o dedo para o tradutor quando a legenda não sai corretamente.

Bibliografia sugerida:


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MARIA HELENA GIORDANO é tradutora e professora de inglês em Campinas, São Paulo. É formada pelo curso de Pós-Graduação de Tradução da Faculdade Estácio de Sá e membro da Associação Brasileira de Tradutores (ABRATES). No momento, participa do programa de mentoria Caminho das Pedras, organizado pela ABRATES, e é mentorada pela tradutora e membro da PLD Rafa Lombardino.

June 29, 2017
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2017 PLD Election ― Meet the Candidates

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Mirna Soares, PLD Administrator 2015-2017

Every other year, each ATA Division selects a new slate of officers for its administration.

Since 2015, I have had the pleasure to serve as Administrator, alongside Assistant Administrator Érika Lessa, and to work with the Leadership Council (LC) and other PLD members in order to keep the Portuguese Language Division’s legacy activities going and to develop new ones.

If you enjoyed a session with a guest speaker or a PLD party at the ATA Conference, chatted with friends at our new PLD Meet-ups, kept informed through our social media or listserv, contributed to our blog, or listened to our podcasts during your commute, you can thank your fellow PLD members who volunteered their time and effort.

The PLD is a place to feel at home in the ATA universe: everything organized and carried out by our Division starts with an idea that is developed into action by volunteers, who are so many of us.

To coordinate this group of incredible volunteers, we rely on members of the PLD Administration—and now it’s time to pick new ones!

All PLD members received an email from ATA Headquarters on June 27, announcing that Rafa Lombardino and Roberta Barroca are candidates for Administrator and Assistant Administrator, respectively. It is a joy to know that these two LC members are eager to continue making their contributions. Rafa has been editing the PLD Blog for two years and is one of the most energetic and innovative people I know; Roberta is super-talented and creative (just read one of her posts and you’ll agree!). With their easygoing personalities, I’m sure these two will make a dynamic duo.

If you are interested in becoming an Administrator or Assistant Administrator, you can request that your name be added as a candidate on the ballot. Additional candidates must be voting members of the Association. Deadline for receipt of nominations to add candidates to the slate is August 11 (45 days after publication of slate); each nomination must include a written acceptance letter and candidate statement from the candidate to be added, and sent (mail, fax, or email) to:

American Translators Association
Attn: Jamie Padula
225 Reinekers Lane, Suite 590
Alexandria, Virginia 22314
Fax: +1-703- 683-6122
jamie@atanet.org

If no further candidates are received, this will be an uncontested election, so officers will be declared by acclamation at the Portuguese Language Division’s Annual Meeting during ATA’s 58th Annual Conference (October 25-28, 2017, in Washington, DC). Further details on how to become a candidate can be found in the June 27 email sent to all PLD members from ATA Headquarters; if you have further questions, please contact Jamie Padula, ATA Chapter and Division Relations Manager, at jamie@atanet.org.

It’s vital that you participate in this process by showing up at the meeting, voting online (if the election is contested), or simply supporting the candidates. EVERY PLD member can participate, and, if this election becomes contested, EVERY PLD member can vote, even if you are not an ATA voting member. However, candidates have to be ATA voting members. To learn how you can become a voting member, check out this page. To know more about how Division elections work, read this post by former PLD officer Naomi Sutcliffe de Moraes.

Make sure you read the Candidate Statements below to get to know them better. If you are planning on going to the ATA Conference, please come to our Annual Meeting; we will be posting the schedule with the time and place soon.


Mirna Soares has been a translator and an interpreter for as long as she can remember. What started as a job to get her through college became a career, at first sidetracking other activities and then taking up front and center. She holds a Master’s in Language Studies from PUC-Rio and has worked in areas as varied as subtitling, simultaneous interpretation and book translations. Before she became the division Administrator, Mirna was involved in many ATA activities and had the opportunity to speak in Annual Conferences, volunteer for the PLD Leadership Council and become a Certified Translator from Portuguese into English and English into Portuguese. Originally from Brazil, Mirna currently lives in Washington, D.C. where she is a staff interpreter for the Inter-American Defense College.


CANDIDATE FOR ADMINISTRATOR

rafa orangeRafa Lombardino (email)

I joined the ATA in 2007 and became certified in the English > Portuguese language pair that same year. In 2013 I earned my Portuguese > English certification. My career changed dramatically in 2009, after I attended the 50th Annual Conference in New York and got to know members of the Portuguese Language Division. Learning about the experiences of translators working in my language pairs and collaborating with them throughout the past decade has been a big factor in my growth both as a professional and as an individual.

I am running for Administrator because I would like to give back to our community. If elected, one of my goals will be to make sure that all PLD members are aware of how the division works and how it can help them find collaborators, pursue new professional opportunities, and share experiences.

I have been part of the PLD Leadership Council since early 2016, editing the PLD blog and bringing articles of interest to our members. By updating the blog regularly, we’ve been able to increase our online presence and reach out to more members.

As the PLD Administrator, I would like to intensify that online presence, to expand a forum where members can share their ideas and opinions about different aspects of the profession and stay in touch all-year round, not just during conference week. I also want to help the ATA elevate the status of translators and interpreters as agents of change worldwide.

I have worked as a translator for 20 years and I specialize in communications, technology, EH&S, education, and literature. I have an Associates Degree in Computer Sciences, emphasis on Data Processing, from Liceu Santista, a technical high school in Brazil, as well as a BA in Social Communications, Major in Journalism, from Universidade Santa Cecília. In 2008, I earned a Professional Certificate in English/Spanish Translation and Interpretation from the University of California San Diego Extension and two years later became an instructor there in order to teach newcomers about the role of technology in the T&I industry.

I am very excited to have this opportunity to work with all PLD members over the next two years.


CANDIDATE FOR ASSISTANT ADMINISTRATOR

img_8925Roberta Barroca (email)

I am pleased to be nominated to serve as assistant administrator of the Portuguese Language Division.

I’ve been a Brazilian Portuguese-to-English interpreter and translator since 2007. Having spent a great deal of my career in Rio de Janeiro, Brazil, I’ve had the opportunity to work in different sectors ranging from oil and gas to sports and medicine. As fate would have it, I ended up specializing in motivational speakers, gurus and coaches.

I attended my first ATA Conference in 2007 in San Francisco and since then I’ve had great respect and admiration for the work carried out by the ATA. In 2016 I joined PLD’s Leadership Council and, among other things, helped to organize the ATA PLD meet-ups, a new initiative the PLD undertook with great success.

If elected, I will work toward the following goals:

  • Support the administrator in whatever she deems important for the PLD.
  • Strengthen the dialog among division members by offering several attractive networking platforms and events.
  • Work towards attracting new members.
  • Find out how the ATA can best assist its members and how its members can best assist the ATA.

Ultimately, I would like to connect with all PLD members and expand the relevance of the division through their input and participation.

 

June 21, 2017
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Metáforas da tradução: O que significa ser um bom tradutor?

Photo Credit: Diagramativo

Photo Credit: Diagramativo

Maíra Monteiro

Na abertura do VIII Congresso da Associação Brasileira de Tradutores (ABRATES), o brilhante professor Leandro Karnal nos brindou com belas metáforas sobre o que significa traduzir e ser um bom tradutor. Uma delas, a dos “cegos e o elefante”, reflete o papel do tradutor como mediador de culturas. Já o conto humorístico “O tradutor cleptomaníaco“, de Dezsö Kosztolányi, também mencionado por Karnal, brinca com a possibilidade de se ferir loucamente a ética da profissão com manobras impensáveis.

Vamos começar com a história dos cegos e do elefante. Certo dia, um príncipe mandou chamar um grupo de cegos em seu castelo, mandou trazer um elefante e o colocou diante do grupo. Em seguida, foi levando os cegos até o elefante para que o apalpassem. Um apalpava a barriga, outro a cauda, outro a tromba. Então, o que tinha apalpado a barriga disse que o elefante era como uma enorme parede. O que tinha apalpado a cauda discordou e disse que o elefante se parecia mais com uma corda. Por fim, o que tinha apalpado a tromba interferiu: “Vocês estão por fora. O elefante é mangueira de água…”.
Enquanto os cegos se envolveram numa discussão sem fim, cada um querendo provar que os outros estavam errados de acordo com sua própria experiência, o tradutor é aquele que vê que o elefante é tudo o que foi dito. Transpondo a metáfora para o mundo da tradução, o elefante representa a polissemia das palavras. Uma palavra pode ter diferentes acepções na mesma cultura e entre culturas diferentes de acordo com o contexto. O tradutor é aquele que aceita e concilia essas diferentes visões de mundo em seu trabalho fazendo escolhas muitas vezes difíceis.

Ao contrário do que foi ilustrado acima, o tradutor cleptomaníaco do conto de Kosztolányi não cumpre o primeiro mandamento da boa tradução: não roubarás (ou omitirás) palavras. Esse princípio está na base da ética da profissão. Com certeza, profissionais como você não sofrem desse mal, mas transcrevi o conto abaixo apenas para alegrar seu dia. 😉

 

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O TRADUTOR CLEPTOMANÍACO
e outras histórias de Kornél Esti
Dezsö Kosztolányi

Falávamos de escritores e poetas, de velhos amigos, com que começamos a jornada, mas que depois se distanciaram e desapareceram. De quando em quando lançávamos um nome ao ar. Quem se lembra dele? Balançávamos a cabeça e um pálido sorriso se esboçava em nossos lábios. No espelho de nossos olhos surgia um rosto esquecido, uma carreira e uma vida perdidas. Quem sabe algo sobre ele? Viverá ainda? O silêncio respondia à pergunta. Neste silêncio, a coroa de flores de sua glória farfalhava, como farfalhavam as folhas no cemitério. Calávamo-nos.

Ficamos assim durante minutos, até que alguém evocou o nome de Gallus. — Pobre sujeito — disse Kornél Esti—, encontrei-o anos atrás – , mas já faz sete ou oito anos, sob condições muito tristes. Foi quando lhe aconteceu algo relacionado com uma novela policial, algo que também havia sido uma história policial, a mais emocionante e mais dolorosa que já vivi. Porque vocês o conheciam, um pouco, ao menos. Era um garoto talentoso, eletrizante, intuitivo, consciencioso e culto também. Falava várias línguas. Sabia inglês tão bem, que dizem que o príncipe de Gales tomara aulas particulares com ele. Havia morado quatro anos em Cambridge.

Mas tinha um defeito fatal. Não, não bebia. Mas surrupiava tudo que estava ao alcance de sua mão. Roubava como uma ave de rapina. Tanto lhe fazia se se tratava de um relógio de bolso, chinelos ou um enorme duto para chaminé. E não se preocupava também com o valor dos artigos roubados, nem com o seu volume e dimensões. Geralmente não se importava com a sua utilidade. Seu prazer consistia simplesmente em fazer aquilo que queria: roubar. Nós, os seus amigos mais próximos, nos esforçávamos para trazê-lo à razão. Falávamos à sua alma, carinhosamente. Repreendíamos e ameaçávamos. Ele concordava conosco. Prometia sempre lutar contra sua natureza. Mas a razão não vencia, sua natureza era mais forte. Sempre recaía.

Quantas vezes desconhecidos não o repreenderam, e não o humilharam em lugares públicos, quantas vezes não o flagraram, e, nessas ocasiões, tínhamos de tomar atitudes inacreditáveis para minimizar as conseqüências de seus atos. Certa vez, porém, no expresso para Viena, foi surpreendido por um comerciante morávio ao aliviá-lo de sua carteira, e entregue à polícia na estação mais próxima. Trouxeram-no algemado para Budapeste.

Tentamos salvá-lo de novo. Vocês, que escrevem, sabem que tudo é decidido pelas palavras: tanto o valor de um poema como o destino de um homem. Tentamos provar que ele era um cleptomaníaco e não um ladrão. Aquele que conhecemos geralmente é cleptomaníaco. Aquele que não conhecemos geralmente é ladrão. O tribunal não o conhecia; assim foi qualificado — ladrão, e condenado a dois anos de prisão.

Depois de libertado, numa sombria manhã de dezembro, próximo ao Natal, apareceu-me, esfomeado, esfarrapado. Jogou-se a meus pés. Implorou que eu não o abandonasse, que o ajudasse, que lhe arrumasse trabalho. Escrever sob seu próprio nome estava fora de qualquer cogitação. Nada sabia fazer, porém, senão escrever. Procurei então um editor honesto e humano, recomendei-o, e no dia seguinte o editor incumbiu-o da tradução de uma novela inglesa de detetives. Era um daqueles lixos com os quais nós não queremos sujar as mãos. Não o lemos. No máximo o traduzimos, usando luvas. Seu título — até hoje me lembro —, “O misterioso castelo do conde Vitsislav”. Mas que importava? Fiquei feliz por ajudá-lo, ele feliz por poder comer e assim começou o trabalho. Trabalhou com tanto afinco que em duas semanas — muito antes do prazo — entregou o manuscrito.

Fiquei extremamente surpreso quando, passados alguns dias, o editor me comunicou que a tradução do meu protegido era totalmente inutilizável, e por isso não estava disposto a pagar nenhum vintém. Não entendi bem. Fui até lá de táxi.

O editor, sem nada dizer, entregou-me o manuscrito. Nosso amigo o datilografara com capricho, numerara as páginas, até as prendera com uma fita com as cores nacionais. Isso era muito dele, pois — acho que já disse —, em questões de literatura, era preciso e escrupulosamente meticuloso. Comecei a ler o texto. Soltei um grito de admiração. Frases claras, mudanças engenhosas, montagens lingüísticas espirituosas se sucediam, muito mais digna que o original. Espantado, perguntei ao editor que defeito tinha encontrado. Ele me entregou original inglês, de forma tão silenciosa quanto fez com o manuscrito, e pediu-me para comparar os dois textos. Por meia hora, mergulhei alternadamente no original e no manuscrito. Ao final, levantei-me consternado. Declarei que ele estava com toda a razão.

Por quê? Nem tentem adivinhar. Estão enganados. Não tentou contrabandear o texto de um outro original. Era realmente “O misterioso castelo do conde Vitsislav”, numa tradução fluente, artistíca, e por vezes poética. Estão novamente enganados. O texto não continha nenhum escorregão. Afinal, ele sabia inglês e húngaro perfeitamente Parem de tentar. Disso vocês nunca ouviram falar. A mancada foi outra. Totalmente outra.

Eu também descobri aos poucos, gradualmente. Prestem atenção. A primeira frase do original inglês dizia assim: “As trinta e seis janelas do velho castelo, desgastado pelo vento, brilhavam. No primeiro andar, na salão de baile, quatro lustres de cristal iluminavam luxuosamente. Na tradução húngara estava: “As dezessete janelas do castelo, desgastado pelo vento, brilhavam. No primeiro andar, dois lustres de cristal iluminavam luxuosamente”. Arregalei meus olhos e continuei a leitura. Na terceira página, o escritor inglês dizia: “Com um sorriso irônico, o conde Vitsislav abriu sua carteira recheada e atirou a quantia pedida, mil e quinhentas libras…” Isso foi interpretado da seguinte forma pelo tradutor húngaro: “Com um sorriso irônico, o conde Vitsislav abriu sua carteira e atirou a quantia pedida, cento e cinqüenta libras…”

Tive uma péssima premonição, que — felizmente se tornou uma certeza nos minutos seguintes. Mais abaixo, no fim da terceira página, li na edição inglesa: “A condessa Eleonora estava sentada num dos cantos do salão de baile, vestida para a noite, usando as velhas jóias da família: tiara de diamantes, herdada da sua tataravó, esposa de um príncipe alemão;sobre seu colo de cisne, pérolas verdadeiras de brilho opaco; seus dedos quase se enrijeciam com os anéis de brilhante, safira, esmeralda.

O manuscrito húngaro, para minha grande surpresa, assim trazia: “ A condessa Eleonora estava sentada num dos cantos do salão de baile, vestida para a noite…” Sem mais. A tiara de diamantes, o colar de pérolas, os anéis de brilhante, safira e esmeralda haviam desaparecido. Compreendem o que fizera esse infeliz escritor, merecedor de um futuro melhor? Simplesmente roubou as jóias de família da condessa Eleonora, e, com a mesma imperdoável leviandade, roubou até o simpático conde Vitsislav, deixando das suas mil e quinhentas libras apenas cento e cinqüenta,e da mesma forma surrupiou dois dos quatro lustres de cristal, e desviou vinte e quatro das trinta e seis janelas do velho castelo desgastado pelo vento. Tudo começou a girar ao meu redor. Minha surpresa só aumentou quando constatei, sem nenhuma dúvida, que essa determinação percorria todo o seu trabalho. Por onde sua pena de tradutor passasse, sempre causava prejuízo aos personagens, mesmo que só se apresentassem naquele capítulo, e, sem respeitar móvel ou imóvel, atropelava a quase indiscutível sacralidade da propriedade privada. Trabalhava de várias maneiras. Na maioria das vezes, os objetos desapareciam sem mais nem menos. Aqueles cofres, talheres de prata, cuja missão era enobrecer o original inglês, não os encontrei em nenhum lugar no manuscrito húngaro. Em outros casos só tirava uma parte, a metade ou dois terços. Se alguém mandava o criado levar cinco malas para a cabine do trem, ele só mencionava duas; sobre as outras três silenciava sorrateiramente. De todos os casos, para mim, o pior — porque isso decididamente mostrava má intenção e falta de hombridade — era que com freqüência trocava as pedras e metais preciosos por outros sem nobreza e sem valor; a platina por lata, o ouro por latão, o diamante por zircotina ou vidro.

Despedi-me do editor, cabisbaixo. Por curiosidade, pedi emprestado o manuscrito e o original inglês. Como estava intrigado pelo verdadeiro enigma dessa novela policial, continuei em casa minha investigação, e fiz um balanço completo dos artigos roubados. Trabalhei sem parar da uma e meia da tarde até seis e meia da manhã. Descobri, finalmente, que nosso desvirtuoso colega escritor apropriou do original inglês, durante a tradução, ilegal e indecentemente, 1.579.251 libras esterlinas, 177 anéis de ouro, 947 colares de pérola, 181 relógios de bolso, 309 brincos, 435 malas, sem falar das propriedades, florestas e pastos, castelos de príncipes e barões, e outros objetos menores, lenços, palitos de dente, campainhas, cuja listagem seriamuito comprida e talvez inútil. Onde colocou todos esses móveis e imóveis que afinal só existiam no papel, no reino da imaginação; qual era a razão do seu furto; a investigação iria muito longe e assim melhor nem especular. Mas tudo isso me convenceu de que ele ainda era escravo de seu vício criminoso, ou da doença, e não existia nenhuma esperança de cura, e não merecia ser amparado pela sociedade honesta. Retirei minha proteção devido à minha indignação moral. Entreguei-o ao destino. Depois, nunca mais ouvi falar dele.


NOTA DO EDITOR: Este texto foi publicado originalmente o blog da autora.


MaíraMAÍRA MONTEIRO é graduada e licenciada em Letras (Inglês – Literaturas) pela UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) e especialista em Tradução e Interpretação de Conferência pela UGF (Universidade Gama Filho). Atua como tradutora e revisora de língua inglesa no setor de localização há dez anos. Suas principais áreas de trabalho são tecnologia da informação, turismo e hotelaria, marketing, entre outros. É credenciada à ABRATES desde 2014.